(2015-2016) O mundo é independente de minha vontade (exercícios de ontologia tractariana) / (2015-2016) The world is independent of my will (exercises on tractarian ontology) - Guilherme Ghisoni

A ideia central deste ensaio foi concebida no final da década de noventa, através do estudo da obra do compositor americano John Cage. Em muitas de suas composições, Cage (inspirado por Marcel Duchamp) utilizava sequências aleatórias para determinar as notas, os silêncios, as durações e a intensidade das notas. Ao migrar da música para a fotografia, adaptei esse método de composição para o equipamento fotográfico. A partir de um único ponto de luz, sequências aleatórias de números determinavam quantas exposições seriam feitas no mesmo negativo, qual a posição da câmera em relação ao ponto, a cor do ponto, se a exposição estaria em foco ou fora de foco, a quantidade do desfoque, se haveria movimento, qual eixo iria mover e a quantidade de movimento.

Com o passar dos anos, explorei várias versões desta ideia (inicialmente em 35mm, preto e branco, depois em médio formato, colorido) - algumas dessas fotos encontram-se no site no ensaio intitulado "Kinesis". Nestas fotos, a ideia central era a interação com a aleatoriedade. A aleatoriedade dos pontos e riscos representava a aleatoriedade do mundo e, em meio a essa aleatoriedade, eu colocava os meus pontos e riscos. Os quadros expressam assim o modo como constantemente interagimos com a aleatoriedade na vida - (a vida como um jogo de xadrez com a aleatoriedade).

Foi através do estudo do Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein que compreendi a razão pela qual as ideias de John Cage me interessavam tanto. No Tractatus, Wittgenstein concebe a realidade como situada no interior de um espaço lógico, que fixa a totalidade das possibilidades. Os fatos que compõem o mundo são ocorrências contingentes de algumas dessas possibilidades. Esses fatos são logicamente independentes entre si e ocorrem na exata medida que poderiam não ocorrer. O sujeito é aquele que contempla os fatos do mundo como totalidade limitada. O sujeito não é um fato no mundo, mas um limite do mundo. E a contingência dos fatos seria completamente independente da vontade desse sujeito.

Com o estudo do Tractatus, a obra "Music of Changes" de John Cage me pareceu a exata expressão da ontologia do Tractatus (embora, certamente Wittgenstein fosse detestar as obras de Cage - como detestava quase tudo que posterior a Brahms). As notas aleatórias expressavam a contingência dos fatos do mundo e o silêncio no qual essas notas ocorriam representava o espaço lógico de possibilidades sonoras.

É por esse viés wittgensteiniano que concebo agora esse novo ensaio fotográfico. O espaço fotográfico ocupa a posição do espaço lógico de Wittgenstein e os riscos e pontos são determinações completamente aleatórias, representando os fatos contingentes que compõem o mundo no espaço lógico.