(2018) O mundo é independente de minha vontade / (2018) The world is independent of my will - Guilherme Ghisoni

Sobre o ensaio:

Este ensaio tem como tema central a contemplação do acaso e da aleatoriedade. As imagens que compõem o ensaio são o resultado de determinações aleatórias, baseadas em sequências numéricas. Cada uma das imagens materializa determinações visuais que são independentes da minha vontade – assim como seriam os fatos do mundo, segundo Wittgenstein.

Concebi a ideia central deste ensaio em 1998, através do estudo da composição “Music of Changes” (1951), do músico americano John Cage. Nesta obra, Cage (inspirado por Marcel Duchamp) utiliza sequências aleatórias para determinar as notas, os silêncios, as durações e a intensidade das notas. Ao migrar da música para a fotografia, adaptei esse método de composição para a fotografia.

O título do ensaio é um aforismo do Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein (publicado em 1921).

No Tractatus, Wittgenstein concebe a realidade como situada no interior de um espaço lógico, que fixa a totalidade das possibilidades do mundo. Os fatos que compõem o mundo são ocorrências contingentes, logicamente independentes entre si e que ocorrem na exata medida que poderiam não ocorrer. O sujeito é aquele que contempla os fatos do mundo, que independem da vontade desse sujeito.

O paralelo entre John Cage e o Tractatus se expressa no modo como as notas aleatórias de Cage podem ser tomadas como a representação da contingência dos fatos do mundo e o silêncio no qual essas notas ocorrem, o espaço lógico de possibilidades sonoras. É por esse viés wittgensteiniano que retomo este ensaio fotográfico. O espaço pictórico ocupa a posição do espaço lógico de Wittgenstein e os riscos e pontos são determinações aleatórias que expressam a contingência dos fatos do mundo.


Sobre o horizonte histórico:

O uso da aleatoriedade na música data do séc. XVII, quando a Musikalisches Würfelspiel (jogos de dados musicais) se popularizou na Alemanha. Mozart e Karl Philipp Bach são exemplos de compositores que utilizaram esse método.

No séc. XX (entre os anos de 1913 e 1915), Marcel Duchamp explorou várias ideias musicais e compôs duas peças baseadas em operações aleatórias (sendo a principal delas a Erratum Musical – para três vozes). A ideia de Duchamp era construir uma composição mecânica, na qual o “intermediário virtuoso” seria suprimido.

O principal expoente, no séc. XX, do uso da aleatoriedade como método composicional, foi o artista americano John Cage (1912-1992). O uso da aleatoriedade em Cage tem um duplo papel: ético e ontológico. Do ponto de vista ético, o uso da aleatoriedade visava (à semelhança de Duchamp) livrar a música dos preconceitos e desejos do artista. Do ponto de vista ontológico, Cage queria “imitar a natureza no seu modo de operação”.


Metodologia:

Aplicando uma grade numérica ao visor da câmera, a partir de um único ponto de luz, sequências aleatórias de números determinam quantas exposições serão feitas na mesma imagem, quantas cores serão utilizadas, qual a posição do ponto, a sua cor, se a exposição estará em foco ou fora de foco, a quantidade do desfoque, se haverá movimento e até onde será o movimento.

As sequências de números aleatórios determinam a seguinte série de perguntas:

1 – Quantas exposições serão realizadas na mesma imagem (de 1 até 50)?

2 – Quantas cores serão utilizadas?

3 – Quais cores serão utilizadas? (Branco (0 até 19), azul (20 até 39), vermelho (40 até 59), verde (60 até 79), amarelo (80 até 99))

4 – A exposição será ponto ou haverá movimento (par ou ímpar)?

• Caso ponto: eixo vertical (0 até 99) e eixo horizontal (0 até 99)

• Caso haja movimento: do eixo vertical (0 até 99) e eixo horizontal (0 até 99) até eixo vertical (0 até 99) e eixo horizontal (0 até 99)

5 – Estará em foco ou fora de foco (par ou ímpar)?

• Caso fora de foco: determinar grau de desfoque (de 0 até 99)

6 – (Dependendo da resposta da 3) qual cor?

Repetir o processo até obter o número de exposições que serão realizadas na mesma imagem.

(Em uma das fotografias, a questão 4 (acerca da possibilidade de movimento) foi suprimida).


Outras versões dessa mesma ideia podem ser encontradas em: (2015-2016) O mundo é independente de minha vontade (exercícios de ontologia tractariana) e Kinesis (no qual a temática era a interação com a aleatoriedade).