Por muito tempo me perguntei: como seria possível tornar evidente a materialidade da imagem digital? Ao ser convertida em uma notação de zeros e uns, a imagem digital parece perder quase toda a sua materialidade. A solução que encontrei foi me deter sobre o processo de impressão das imagens digitais. Fiz vários testes até encontrar uma superfície de impressão que não absorvesse a tinta, usando impressoras de jato de tinta. O resultado mostrava a imagem digital em toda sua materialidade, composta por pigmentos que, quando misturados, tinha um aspecto aquoso e fluido.

Cheguei a esse resultado em meio a um semestre no qual estudávamos os escritos de Clement Greenberg, no grupo que atualmente é o Laboratório de Pesquisa de Filosofia da Fotografia, sobre a diferença entre o espaço tridimensional e o espaço pictórico na pintura modernista. O espaço tridimensional é o espaço no qual habitam os objetos físicos. É a possibilidade da criação da ilusão de um espaço tridimensional que a pintura renascentista nos legou com o desenvolvimento da perspectiva. O espaço tridimensional, no entanto, não é próprio da pintura, mas de outras artes que lidam com objetos físicos tridimensionais – como a escultura e a arquitetura. De acordo com a interpretação de Greenberg, na virada autorreflexiva da modernidade, a pintura se afastou da ilusão de um espaço tridimensional e buscou a criação de um espaço que lhe seria próprio. A solução paradoxal dos modernistas foi a criação de um espaço pictórico que não se confunde com o espaço tridimensional dos objetos físicos e que permite ver tanto as formas criadas pelo arranjo de cores quanto a superfície bidimensional no qual a cores se arranjam como tinta. Para isso, a pintura teve que se mostrar como tinta sobre superfície.

Através do estudo de Greenberg, pude notar que vivemos atualmente uma certa ironia da história. A fotografia, desde a sua criação, em muitos momentos, buscou se afastar da pintura, tendo em vista constituir a sua autonomia como arte. Agora, quase duzentos anos depois de sua criação, a fotografia em sua forma mais corriqueira, como impressão de imagens digitais, se tornava – do ponto vista ontológico – indistinta da pintura. Ambas agora são tinta sobre superfície. É essa ironia do destino que o ensaio Tinta sobre Superfície busca tematizar. Para explicitar essa ironia, imprimo fotografias digitais em uma superfície que não absorve as tintas, permitindo a contemplação da materialidade do suporte no qual as cores são formadas.

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