O modo como podemos nos referir a um objeto particular ou a uma classe de objetos é analisado pelas diferentes teorias da referência. Nas teorias descritivistas (que podem ser retraçadas às ideias do filósofo Gottlob Frege), a cada nome deve estar relacionado um sentido, que é uma descrição (ou conjunto de descrições) a ser satisfeito apenas pelo objeto nomeado (quando este objeto existe). Assim, determinamos o sentido de Aristóteles, como “o discípulo de Platão”, “o pai da lógica”, “o autor da Metafísica” etc.

Uma teoria concorrente a esta é a teoria referencialista direta, que sustenta que alguns termos da linguagem nomeiam diretamente os seus objetos referentes, sem a mediação de conteúdos conceituais descritivos. Uma versão da teoria referencialista direta é a teoria causal da referência, segundo a qual o que une um nome ao objeto nomeado não são conteúdos conceituais descritivos, mas a existência de uma rota causal histórica. Algum dia alguém diante de Aristóteles o batizou com um nome e o uso deste nome para se referir a essa entidade passou ao longo da história de uma comunidade linguística para outra. Há, assim, uma rota causal que une o nosso uso atual da palavra “Aristóteles” a um ato de nomeação no passado. É por essa razão que, de acordo com a teoria causal da referência, o nome “Aristóteles” tem significado.

Essa teoria causal da referência (que pode ser encontrada no pensamento de Saul Kripke) é denominada por Gareth Evans, em 1982, de “Modelo Fotográfico da Representação Mental”. Assim como o que une uma fotografia ao objeto denotado é a existência de uma relação causal entre o objeto e a fotografia, os nomes na linguagem teriam uma semântica semelhante às fotografias, pois estariam unidos aos objetos denotados pela existência de rotas causais. Nomes e fotografias teriam uma mesma semântica, como modo de relação com o mundo.

Essa perspectiva é adotada por Kendall Walton, como teoria da fotografia, para sustentar a tese de que, através de fotografias, vemos os objetos fotografados eles mesmos – uma vez que estamos causalmente unidos aos objetos retratados. Essa tese é chamada de tese da transparência da representação fotográfica.

No ensaio Teoria Causal da Referência, de maneira irônica, substituo os elementos de algumas fotografias pelos seus respetivos nomes. Visto que, de acordo com essas teorias, haveria uma semântica comum entre as palavras e as fotografias, a substituição dos elementos da fotografia por palavras deveria preservar o estatuto semântico da fotografia, como uma representação que se conecta ao mundo por meio da existência de uma rota causal.

Embora em vários momentos da minha produção acadêmica eu tenha criticado a teoria da transparência de Kendall Walton (aceita também por Dominic Lopes), é preciso dar o braço a torcer: a substituição dos elementos da imagem por palavras ainda preserva alguma transparência da representação fotográfica. Ao olharmos para as imagens do ensaio, podemos reconstruir as imagens fotográficas em pensamento.


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