A visão correta do mundo

O filósofo Wittgenstein, em uma carta endereçada ao editor do Tractatus Logico-Philosophicus Ludwig von Ficker, em 1919, menciona que, embora seu livro seja um tratado de filosofia sobre lógica, o ponto central do livro seria ético. A meu ver, a centralidade da ética no livro de Wittgenstein transparece no modo como a obra objetiva dar uma visão correta do mundo. Afirma Wittgenstein, nos aforismos finais do livro, que quem o entender e conseguir sobrepujar as suas proposições “verá o mundo corretamente”.

Por esse viés, creio que toda arte seja ética. Toda arte (por mais abstrata ou formal) visa dar uma visão correta do mundo. Há diferentes perspectivas e diferentes realidades culturais. As diferentes artes são diferentes modos de ver o mundo. Em cada uma das perspectivas possíveis, a arte dá um modo correto de ver o mundo, naquela perspectiva.

Uma outra maneira de a ética estar presente no Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein é através da delimitação do dizível. Na carta a von Ficker, Wittgenstein afirma: “o meu trabalho consiste de duas partes: uma que está presente aqui [no livro], mais tudo aquilo que eu não escrevi. E é precisamente essa segunda parte que é a importante”. Há algo que escapa à linguagem – o indizível, o inefável. É isto, que está para além da linguagem, que seria o que há de mais importante. O livro, nessa perspectiva, nos daria o caminho para o indizível.

Com isso, creio ser possível inserir Wittgenstein em uma tradição de autores, que podemos classificar de modo geral como uma forma de teologia negativa. Um dos meus autores prediletos dessa tradição é Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Na obra A Teologia Mística, Pseudo-Dionísio escreve sobre um Silêncio, para além de tudo aquilo que pode ser conhecido, no qual residiria o que há de mais alto e absoluto. Este Silêncio seria como uma luz que de tão luminosa se revela a nós como uma treva, acessível apenas àqueles que sabem fechar os olhos.

Na meditação podemos encontrar a experiência desse silêncio indizível. Há um momento na prática da meditação no qual as palavras cessam e nos reconectamos com algo para além das palavras.

A tentativa de expressar isso fotograficamente é recorrente em minhas pesquisas visuais. É essa busca que me levou à realização do ensaio OM.

Grande parte do que faço como professor e pesquisador de filosofia é escrever artigos, palestras, projetos, aulas e conferências, e muito do que hoje em dia escrevo é sobre filosofia da fotografia. Tive então a ideia de sobrepor a algumas imagens trechos de textos de minha autoria, sobre filosofia da fotografia, com exatamente mil palavras. No interior dos textos sobrepostos às imagens, realizei um recorte, que torna mais visível a imagem, por detrás das palavras.

A contemplação do que se mostra para além das palavras seria, na perspectiva wittgensteiniana aqui descrita, o objetivo ético da arte.

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