O desaparecimento do mundo - Guilherme Ghisoni

Neste ensaio fotográfico busco expressar visualmente um sentimento que tem me acompanhado desde o primeiro dia do ano de 2019: o desaparecimento do mundo.

Creio que este sentimento tenha como causa o fato de que nosso país esteja se tornando ininteligível, em face da reescrita do passado e do bruto esforço de mudança da nossa identidade cultural. Rapidamente, passamos de um país que, mesmo com todas as suas mazelas, tinha a alegria como sentimento fundamental, a um país que traz em seu cerne o ódio e a violência.

O mais assustador é ver que a ignorância foi elevada à categoria de virtude. (Uma forma de falácia naturalista – sugeriu-me um sábio colega). O conhecimento e o estudo passaram a ser vistos com desconfiança, como indícios de que o indivíduo foi cooptado pela “terrível ideologia”, que busca o “absurdo ideal” da liberdade de expressão e da universalização dos direitos civis.

O que estamos presenciando é a luta para determinar qual narrativa terá o privilégio de fixar o significado das palavras. Essa luta será travada principalmente no meio acadêmico, no mundo artístico e nos meios de comunicação. O significado das palavras é uma luta fulcral. Quando a narrativa vencedora dá um novo significado a uma palavra, desaparecem o passado, o presente e o futuro, cujo conteúdo inteligível dependia do velho significado.

Mas este ensaio fotográfico não é sobre todas essas coisas. É apenas a tentativa de dar forma e nomear um sentimento: o desaparecimento do mundo.


(Este ensaio é dedicado ao Prof. Paulo Faria. A ideia de uma incomensurabilidade diacrônica, exposta no livro Time, thought, and vulnerability, serviu-me de pano de fundo para as reflexões filosóficas que motivaram este ensaio).

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