A liberdade da fotografia em relação ao mundo

O método que desenvolvi em O mundo é independente de minha vontade passou por várias fases e mudanças técnicas, desde 1998 até 2018 – do 35mm, para o médio formato em preto e branco, depois colorido e, finalmente, em formato digital. Com os aprimoramentos em cada uma dessas etapas de desenvolvimento técnico da ideia, pude alcançar maior precisão nos traços e pontos, e no controle minucioso dos diferentes graus de desfoques. Dei-me conta, então, de que tinha à disposição a técnica necessária para elevar a fotografia a um outro nível de liberdade em relação ao mundo.

Na fotografia abstrata, há uma independência em relação à representação. As imagens abstratas, em sentido literal, nada representam. As imagens de O mundo é independente de minha vontade não representam eventos e objetos do mundo, mas exemplificam uma aleatoriedade que seria – na perspectiva de Cage e Wittgenstein – constitutiva do mundo. A independência que eu vislumbrava possível não era em relação à representação, mas uma independência em relação aos objetos do mundo, para que a representação na fotografia fosse possível. Ou seja, eu poderia representar algo sem a necessidade do uso da fotografia como uma ferramenta que retrataria aquilo que é representado.

Decidi, então, construir a minha estória da arte. Peguei várias obras da história da arte, com as quais sinto uma certa ligação emocional. Estudei detidamente essas obras e planejei os riscos, pontos e o grau de desfoque (dos riscos e pontos), que seriam necessários para a recriação dessas obras. Preservando a proporção original dos quadros, aos poucos recriei o Meu Tocador de Pífaro (de Manet), o Meu Narciso (de Caravaggio), o Meu Retrato de Sebastião de Morra (de Velázquez), o Meu Retrato de Inocêncio X (também de Velázquez), a Minha Grande Onda de Kanagawa (de Hokusai), o Meu Arlequim sobre Cavalo e o Meu Sonho de Marie-Thérèse Walter (ambos de Picasso), a Minha Moça com Brinco de Pérola (de Vermeer), a Minha Noite Estrelada (de van Gogh) entre outras.

Em sentido literal, todas essas imagens são fotografias – grafias realizadas com luz. Porém, o elemento representacional mimético não decorre do modo como a luz dos objetos é projetada no interior da câmera escura, mas da maneira como uma série de ações é realizada, para a recriação do objeto representado.



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