A materialidade da imagem fotográfica

Uma das constatações importantes do filósofo Ludwig Wittgenstein, por volta de 1931, é que as memórias não são imagens materiais – diferentemente das pinturas, desenhos e fotografias. Os critérios de exatidão que podemos aplicar às imagens materiais não se aplicam às memórias. Diante de uma fotografia do céu estrelado podemos perguntar quantas estrelas foram fotografadas. Porém, da memória de um céu estrelado, segundo Wittgenstein, a única resposta correta para a pergunta acerca do número de estrelas seria “vi inumeráveis estrelas”.

O estudo dessa reflexão em Wittgenstein e dos desdobramentos em Bertrand Russell me levaram a buscar modos de tornar evidente a materialidade da imagem fotográfica. Embora memórias e fotografias sejam modos de representação ou percepção do passado, as fotografias, em sua forma impressa ou em negativo, diferentemente das memórias, são objetos materiais. Isso também me levou a ponderar sobre o estatuto temporal das fotografias, como objetos que interagem causalmente com outros objetos e sofrem a ação do tempo.

No ensaio Ainda Presente, realizo intervenções no negativo fotográfico, tendo em vista tornar evidente a materialidade da imagem fotográfica. Nessas intervenções, queimo partes dos negativos, faço riscos e furos, e jogo tinta e outras substâncias (como café e chimarrão) sobre o negativo. A ideia é tornar evidente que a imagem está no negativo assim como as manchas, os riscos e substâncias que podem ser depositadas sobre ele.

Ao ver os resultados dessas intervenções, me dei conta da possibilidade de uma importante inversão na relação entre fotografia e passado. Há teorias da fotografia que a concebem como modos de percepção do passado. Para alguns autores, veríamos os objetos passados eles mesmos através de fotografias. Em artigos e capítulos de livros, busquei mostrar que essa concepção dependeria de uma metafísica onerosa, que pressuporia a existência de entidades no passado. Os objetos precisariam existir no passado para que pudéssemos vê-los através das fotografias. Uma concepção oposta seria sustentar que só os objetos presentes existem. Creio que esta posição filosófica seria muita mais econômica. O que deixa de ser presente, deixa de existir. O que ainda não é presente, ainda não existe. Por essa perspectiva, não teríamos como ver os objetos passados eles mesmos através de fotografias, caso esses objetos não mais existissem no presente.

A materialidade da imagem fotográfica se conecta com essas considerações da seguinte maneira. Ao mostrar que a imagem fotográfica tem o mesmo estatuto que os riscos, as manchas, e as substâncias depositadas sobre o negativo, me dei conta de que ao olharmos para uma fotografia não vemos algo que existe no passado. Vemos o resíduo no presente de algo que, ao deixar de ser presente, deixou de existir. A fotografia não é, assim, uma janela para o passado, mas ela é Ainda Presente. Ela é um resíduo do passado no presente.

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