O Teatro da Visão - Guilherme Ghisoni

Neste  ensaio, retomo o problema da ilusão do espaço tridimensional na fotografia e busco reconduzir a composição à planaridade do arranjo de corres e formas.

A ilusão de um espaço tridimensional foi o grande objetivo da pintura, desde o renascimento até o início da arte moderna. A pedra de toque desta abordagem é o tratado Della pittura de Leon Alberti, de 1435, no qual descreve o plano pictórico como uma janela transparente. É a ilusão de um espaço tridimensional, ocupado por objetos físicos, que a teoria da perspectiva, desenvolvida em parte por Alberti, visava possibilitar.

Desta reflexão surge uma metáfora: o quadro como um palco, no interior do qual a cena retratada se constrói.

Com esta metáfora em mente, ao olhar para alguns negativos, tive a nítida impressão de que as bordas do negativo funcionavam como cortinas, que limitavam o “palco” da fotografia. Neste palco, o “teatro da fotografia” nos daria a ilusão de um espaço tridimensional.

É esta ilusão que busco problematizar no ensaio, ao reconduzir a visão da imagem ao arranjo planar de cores e formas. Com isso, busco o ponto de intersecção entre aquilo que na teoria da visão de Zenon Pylyshyn é descrito como visão inicial e visão tardia. Na visão inicial (que ocorre até 120 milissegundos após o estímulo visual), há a segmentação de bordas e a organização em grupos, como superfícies que se sobrepõem, vistas em relação ao observador. É apenas na visão tardia (entre 150 e 600 milissegundos) que ocorre a aplicação dos conceitos de objetos físicos, independentes do observador, concebidos como situados em um espaço tridimensional objetivo.

Em outros termos, é o ponto de confluência entre a materialidade do espaço tridimensional da visão tardia e a geometria das superfícies que compõem a visão inicial que busco, neste ensaio, tornar visível ao conceber a fotografia como o "teatro da visão".