Este ensaio foi inicialmente motivado pela leitura da definição de Roland Barthes do termo japonês “satori”, no livro “L'empire des signes”. Segundo Barthes, satori é “a súbita suspensão da linguagem, um vazio que apaga em nós a região dos Códigos, uma quebra daquela recitação interna que constitui nossa pessoa”. O satori seria, muitas das vezes, alcançado por meio de um "koan" - um pequeno texto, sentença ou pergunta de caráter enigmático e paradoxal, com o objetivo de dissolver o raciocínio lógico e conceitual, conduzindo o praticante a uma súbita iluminação (o satori).

Na tradição pirrônica, há algo semelhante presente na ideia da “suspensão do juízo”. Segundo os pirrônicos, é possível contrapor um argumento com outro argumento contrário de igual força. Essa equipotência dos opostos (isostheneia) levaria a uma aporia, na qual a razão se veria incapaz de decidir entre os dois polos da argumentação e seria forçada a suspender o juízo. A suspensão (chamada de epoché) leva (“assim como uma sombra segue o corpo”) à ataraxia (ao estado de não perturbação).

Neste ensaio, busco contrapor duas imagens, como argumentos contrários de igual força, tendo como objetivo levar a visão a um impasse. Assim, busco criar “aporias visuais”, para forçar o olhar à epoché e, por fim, à ataraxia. Em termos não pirrônicos, o objetivo deste novo ensaio é servir aos olhos como koan que levaria a uma súbita suspensão da linguagem (ao satori de Barthes).